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  • Fabrício Souza

Retrospectiva 2019 da Cultura de Riscos no Brasil


2019. Minas Gerais, Brumadinho. Ao menos 160 mortos em soterramento por lama de rejeitos de minério após rompimento de barragem.


Rio de Janeiro, 10 jovens morrem em incêndio em concentração de clube de futebol.


São Paulo, piloto e passageiro morrem em queda de helicóptero em uma importante rodovia.


Rio de Janeiro, 24 vítimas fatais em desabamento de prédios construídos irregularmente.



Todas essas tragédias, entre outras de tamanha severidade, ocorreram nos quatro primeiros meses de 2019.


Nem vou continuar a retrospectiva com os meses seguintes, pois o objetivo não é revirar essas desastrosas cenas de perdas, mas sim destacar a principal semelhança entre os casos: o descumprimento, de alguma forma, de procedimentos de segurança e de leis. Além do não atendimento de itens exigidos pela nossa legislação, são claras as falhas ou ausência de um plano de gestão de riscos, crise, contingência e continuidade.


No primeiro caso, mesmo após meses, uma série de auditorias e procedimentos de análise de riscos e planos de contingência ainda estão sob investigação, contudo, está comprovado que muitos fatores de risco foram escanteados.


No segundo, sabemos da falta de Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros para o local onde houve o incêndio devido uma série de irregularidades. As instalações precárias continuaram sendo utilizadas até que ocorresse o sinistro.


No seguinte, uma aeronave que sequer tinha permissão para transporte de passageiros o fazia sem comunicação às autoridades.


Por último, prédios foram construídos e apartamentos comercializados de forma irregular. Os responsáveis estão relacionados, além deste caso, em uma série de outras investigações.

Mas como disse, esses são apenas quatro casos ocorridos logo no início do ano e que tiveram grande repercussão. Tantos outros não foram igualmente noticiados em todo o país, apesar de deixar vítimas, inclusive fatais. Isso sem contar os inúmeros casos onde, mesmo com todo tipo de negligência, acidentes ainda não ocorreram (único caso em que eu particularmente acredito em sorte).


Ou seja, somente têm destaque casos onde o risco de concretiza, principalmente quando são riscos negativos. Os problemas que nos assombram diariamente, como barragens a beira do colapso, prédios prestes a desabar, estruturas sujeitas a incêndio, entre outros, continuam silenciados pela falta de fiscalização de órgãos competentes e sem a atenção de envolvidos direta e/ou indiretamente.


O que ressalto é que este tipo de negligência é muito comum, chegando a ser regra em muitas empresas e até ramos de atividade.


É evidente que as empresas envolvidas nos casos expostos têm responsabilidade, pois o dono do processo ou da atividade é o dono do risco.


Mas, de forma geral, nos falta, como sociedade, disseminar e apoiar a cultura de auditoria, de controle e de punição. Uma cultura de gestão de riscos e de segurança para as pessoas.


Mas o que dizer, quando grande parte das pessoas ainda dirige sem cinto de segurança e quando o utiliza é por medo da multa e não pelo risco de sofrer uma lesão grave, ou até morte, em caso de colisão?


Como na imagem que ilustra este texto, andamos tranquilamente em cordas bambas se isto for conveniente para os negócios ou para a nossa rotina. Mas quando caímos, não tem volta!

A negligência está em nosso DNA (naquela famosa “Lei do menor esforço”) e só incomoda quando somos prejudicados ou ficamos sensibilizados com grandes desastres.


Naturalmente começamos a gerenciar os riscos bem cedo, quando os pais ensinam que não se deve enfiar o dedo na tomada, ou brincar com fogo. Muitas vezes pagamos para ver e aprendemos pela dor.


Não esqueça esse conceito ao longo da vida. Apoie e pratique políticas de gestão de risco e de segurança tanto nas empresas como no dia-a-dia. Isso vale vidas. E também muito dinheiro, caso esse seja o mais importante para você ou sua organização.


Então espero, francamente, que no próximo ano não tenhamos que esperar novas tragédias para que sirvam de aprendizado, visto que temos histórico suficiente para validar a necessidade e disseminar a cultura de gestão dos riscos.


Um excelente e seguro 2020 para nós!



O Autor


Fabrício Souza


https://www.linkedin.com/in/fabricio-souza-04750a87/




Coordenador de Riscos na Ativa Logística. Co-fundador e administrador do Fórum de GR.


Formado em Logística com especialização MBS em Gestão de Riscos Corporativos e Certificação Profissional em Gestão de Riscos.


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